A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) determinou, nesta quarta-feira (21), a apreensão e a proibição imediata de produtos contendo tirzepatida das marcas Synedica e TG, além da retatrutida de todas as marcas e lotes. A medida inclui a fabricação, importação, comercialização, distribuição, divulgação e uso desses produtos em todo o território nacional.
Segundo a Anvisa, os medicamentos vinham sendo anunciados e vendidos por meio de perfis em redes sociais, especialmente no Instagram, sem qualquer tipo de registro, notificação ou cadastro junto à agência reguladora, o que configura grave infração sanitária.
Enquanto a tirzepatida já é conhecida por estar presente em medicamentos como o Mounjaro, da farmacêutica Eli Lilly, a retatrutida ainda é uma substância experimental, o que explica a decisão da Anvisa de proibir sua circulação. É justamente nesse ponto que reside o principal risco associado ao seu uso.
O que é a retatrutida
A retatrutida é uma molécula desenvolvida para o tratamento da obesidade, apresentada na forma de canetas injetáveis. Ela é classificada como um triplo agonista, pois atua simultaneamente nos receptores de GLP-1, GIP e glucagon — diferentemente da tirzepatida, que age apenas sobre GLP-1 e GIP, e da semaglutida e liraglutida, que atuam exclusivamente sobre GLP-1.
Essa ação combinada torna a retatrutida potencialmente mais potente do ponto de vista metabólico, o que explica o interesse crescente do mercado. De acordo com a endocrinologista Andressa Heimbecher, médica colaboradora do Grupo de Obesidade e Síndrome Metabólica do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), os resultados iniciais chamaram atenção após a divulgação de dados preliminares.
“O primeiro estudo de Fase 3 divulgado apontou uma perda média de 28% do peso corporal, o que acaba viralizando o medicamento”, explica a especialista. No entanto, ela ressalta que os estudos ainda estão em andamento.
Por que a substância não é autorizada
Segundo Heimbecher, o principal problema é que os testes em seres humanos não foram concluídos, o que significa que a substância ainda não possui aprovação de órgãos regulatórios como a Anvisa ou a Food and Drug Administration (FDA) para uso clínico fora de protocolos de pesquisa.
“Embora estudos de Fase 2 tenham demonstrado resultados promissores, a segurança a longo prazo e a eficácia em larga escala ainda precisam ser confirmadas na Fase 3. Utilizar a substância agora, fora de ambiente controlado, é ignorar etapas fundamentais de proteção à saúde”, afirma.
Outro ponto crítico levantado é a origem desses produtos no mercado brasileiro. Se a molécula ainda está em fase de pesquisa, sua circulação comercial indica produção clandestina, sem controle de qualidade, rastreabilidade ou garantia de composição, o que amplia consideravelmente os riscos ao paciente.
Riscos das canetas emagrecedoras não autorizadas
A Anvisa reforça que produtos irregulares e de procedência desconhecida não devem ser utilizados em nenhuma hipótese, pois podem causar efeitos adversos graves e imprevisíveis. Heimbecher destaca que a segurança é o princípio central na liberação de qualquer medicamento.
“As versões originais passam por um processo rigoroso de validação, desde estudos em modelos animais até ensaios clínicos com mais de 10 mil voluntários. Isso garante previsibilidade de efeitos adversos e segurança ao prescritor”, explica. Em contrapartida, versões manipuladas ou alternativas frequentemente não passam por esse mesmo rigor científico.
A endocrinologista Alessandra Rascovski reforça que democratizar o acesso à saúde não significa ignorar critérios de segurança. “O uso de substâncias sem procedência garantida não é um atalho, mas um risco desnecessário. O médico dispõe de diversas ferramentas terapêuticas seguras e éticas para tratar a obesidade”, afirma.
Segundo Rascovski, a ausência de controle de qualidade, estabilidade da molécula e transporte adequado — muitas vezes sem controle de temperatura — torna o uso dessas substâncias eticamente inaceitável. “O primeiro princípio da medicina é o primum non nocere. Sem segurança, não há justificativa clínica para o uso”, conclui.
Orientação da Anvisa
Em nota oficial, a Anvisa reforçou que as substâncias proibidas são fabricadas por empresas desconhecidas, impossibilitando qualquer garantia de qualidade, segurança ou eficácia. A orientação é que pacientes e profissionais de saúde interrompam imediatamente o uso e entrem em contato com os canais oficiais da agência ou com a vigilância sanitária local para formalizar denúncias.

