Pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) demonstraram que ondas de ultrassom de alta frequência podem ser capazes de inativar vírus sem causar danos às células humanas. O estudo, publicado na revista científica Scientific Reports, descreve um fenômeno chamado ressonância acústica, responsável por provocar alterações estruturais nas partículas virais até sua ruptura.
De acordo com os autores, a energia das ondas sonoras é absorvida pelos vírus, especialmente aqueles com formato esférico e envoltório lipídico, como o SARS-CoV-2 e o vírus da gripe H1N1. Esse acúmulo de energia leva à deformação e ruptura do envelope viral, impedindo que o patógeno infecte células humanas.
O mecanismo apresenta uma característica importante: sua seletividade. Diferentemente de outros métodos físicos, como a cavitação — que ocorre em baixas frequências e pode destruir indiscriminadamente células e vírus —, a ressonância acústica atua em frequências mais altas, entre 3 e 20 MHz, promovendo a desestabilização apenas das partículas virais.
Segundo os pesquisadores, o processo não altera significativamente a temperatura ou o pH do meio, o que contribui para sua segurança em relação às células humanas.
Outro ponto relevante é que a eficácia da técnica não depende de mutações genéticas do vírus, mas sim de sua geometria. Isso indica que variantes virais, como as observadas durante a pandemia de covid-19, não comprometeriam o efeito do ultrassom.
A pesquisa envolveu uma colaboração multidisciplinar entre físicos, virologistas e especialistas em doenças inflamatórias, além de contar com a participação de Charles Rice, prêmio Nobel de Medicina de 2020.
Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que a aplicação clínica ainda está distante. Atualmente, a equipe realiza testes in vitro com outros vírus, como dengue, chikungunya e zika, com o objetivo de ampliar o potencial da tecnologia.
Além disso, o método apresenta vantagens ambientais, por não gerar resíduos químicos e não contribuir para o desenvolvimento de resistência viral — um desafio frequente no uso de antivirais convencionais.
A descoberta abre novas perspectivas para o desenvolvimento de terapias físicas no combate a infecções virais, embora ainda demande validação em estudos clínicos futuros.


