O aumento dos custos com saúde em países ocidentais tem levado cada vez mais pacientes a buscar tratamentos médicos fora de seus países de origem. Na Ásia, esse movimento vem ganhando força, com países como China, Coreia do Sul, Vietnã e Filipinas tentando se consolidar como destinos de turismo médico.
O fenômeno envolve pessoas que viajam para realizar procedimentos cirúrgicos, tratamentos oncológicos, cuidados odontológicos, exames diagnósticos e intervenções estéticas por valores mais baixos ou com menor tempo de espera. Para muitos pacientes, a viagem combina assistência médica e turismo, especialmente quando o procedimento permite recuperação rápida.
Um dos exemplos citados é o de Isaias, artista e designer de 26 anos que vive em Atlanta, nos Estados Unidos. Após descobrir um crescimento anormal na vesícula biliar durante uma consulta de rotina, ele foi informado de que precisaria realizar uma cirurgia em até um ano. O procedimento, que não era coberto pelo plano de saúde, custaria quase US$ 10 mil em Atlanta.
Ao buscar alternativas, a família encontrou opções no exterior. No Reino Unido, os custos eram semelhantes, mas uma agência de turismo médico conectou o paciente a uma clínica em Shenzhen, na China, onde o mesmo procedimento foi oferecido por menos de US$ 2 mil. A cirurgia e a recuperação duraram cerca de 48 horas, e o restante da viagem foi aproveitado para conhecer cidades chinesas.
Casos como esse ajudam a explicar por que países asiáticos estão investindo no setor. A Medical Tourism Association estima que o mercado global de turismo médico tenha ultrapassado US$ 100 bilhões em 2024, com previsão de crescimento anual entre 15% e 25%.
A Coreia do Sul é um dos exemplos mais expressivos. O país recebeu mais de 2 milhões de pacientes estrangeiros no ano passado, marcando o terceiro ano consecutivo de recorde. Segundo dados locais, esses turistas e seus acompanhantes movimentaram mais de US$ 8 bilhões em gastos diretos e geraram mais de US$ 15 bilhões em produção nacional.
O número de pacientes dos Estados Unidos também cresceu de forma significativa na Coreia do Sul. Eles já representam um dos maiores grupos de visitantes estrangeiros em busca de atendimento médico, atrás apenas de países próximos, como China, Japão e Taiwan.
A China também vem ganhando espaço nesse cenário. A combinação de custos mais baixos, flexibilização de vistos e reputação crescente de assistência médica confiável tem atraído pacientes de diferentes países. Segundo dados divulgados pela mídia estatal chinesa, hospitais do país receberam 1,28 milhão de estrangeiros no último ano, um aumento de 73% em relação a 2022.
O interesse de pacientes ocidentais ocorre em um momento de pressão crescente sobre os sistemas de saúde. Nos Estados Unidos, os gastos nacionais com saúde chegaram a quase US$ 5,3 trilhões em 2024, mais que o dobro do registrado em 2010. Para pacientes sem cobertura adequada, procedimentos cirúrgicos, tratamentos especializados e terapias inovadoras podem representar custos proibitivos.
Além do preço, o tempo de espera também pesa na decisão. Pacientes de países com sistemas públicos sobrecarregados, como Reino Unido e Nova Zelândia, relatam buscar atendimento no exterior para conseguir consultas, exames e planos terapêuticos em prazos menores do que os oferecidos em seus países.
Em alguns casos, a diferença de valores é expressiva. Plataformas de turismo médico apontam que tratamentos de alta complexidade, como a terapia com células CAR-T para alguns tipos de câncer no sangue, podem custar mais de US$ 500 mil na Europa, enquanto na China seriam oferecidos por valores em torno de US$ 60 mil.
A expansão desse mercado também favoreceu o surgimento de intermediários. Agências e plataformas especializadas auxiliam pacientes estrangeiros na escolha de hospitais, emissão de vistos, tradução, transporte local, pagamentos e organização da estadia. Algumas empresas também oferecem suporte no período de recuperação ou orientam o contato com médicos no país de origem após o retorno.
Apesar do crescimento, especialistas alertam que o turismo médico envolve riscos importantes. O principal deles é a possibilidade de complicações após o procedimento, especialmente quando o paciente retorna para casa e não tem acesso fácil à equipe que realizou o tratamento.
Outros desafios incluem diferenças na qualidade dos serviços, barreiras linguísticas, normas distintas sobre medicamentos e dispositivos, além da dificuldade de verificar a credibilidade das instituições. Segundo especialistas em acreditação internacional, apenas uma pequena parcela dos hospitais do mundo possui departamentos estruturados para pacientes estrangeiros, e menos ainda são credenciados internacionalmente para esse tipo de atendimento.
A confiança é um ponto central. Pacientes que viajam para outro país precisam compreender claramente os riscos, os limites do procedimento, os custos adicionais, a cobertura de eventuais complicações e o plano de seguimento. Sem essa estrutura, a economia inicial pode se transformar em um problema médico e financeiro maior.
Mesmo assim, a tendência continua em expansão. Países asiáticos enxergam no turismo médico uma oportunidade econômica e uma forma de reposicionar sua imagem internacional como destinos modernos, seguros e tecnologicamente avançados. Hospitais, governos e agências de turismo têm buscado atuar de forma conjunta para atrair pacientes estrangeiros.
O setor também se diversifica. Enquanto tratamentos oncológicos, cirurgias e exames diagnósticos chamam atenção pelo custo, procedimentos estéticos seguem entre os mais procurados. Empresas que atuam na intermediação relatam grande demanda por rinoplastia, aumento de mama, lipoaspiração e lifting facial, especialmente entre pacientes dos Estados Unidos.
A procura crescente mostra uma mudança na forma como parte da população encara o cuidado em saúde. Para alguns pacientes, viajar para outro país deixou de ser apenas uma alternativa extrema e passou a ser uma estratégia planejada diante de custos elevados, longas filas e maior acesso à informação online.
No entanto, especialistas reforçam que a decisão exige cautela. Antes de buscar tratamento fora do país, é essencial avaliar a reputação da instituição, a qualificação da equipe, a existência de acreditação internacional, o suporte em caso de complicações e a possibilidade de acompanhamento posterior.
O turismo médico na Ásia revela, ao mesmo tempo, o avanço tecnológico da região e as falhas de acesso em sistemas de saúde mais caros ou sobrecarregados. Para muitos pacientes, a viagem representa uma tentativa de recuperar a saúde sem comprometer completamente a vida financeira. Para os países que recebem esses visitantes, tornou-se uma nova fronteira econômica. Para os sistemas de saúde de origem, é um sinal claro de que custo, acesso e tempo de espera continuam sendo desafios centrais.

