84% dos pacientes com diagnóstico tardio de HIV são heterossexuais

Estudo realizado em hospital de Porto Alegre mostra que pessoas fora dos grupos tradicionalmente associados à infecção podem subestimar o próprio risco

Um levantamento realizado no Grupo Hospitalar Conceição, em Porto Alegre, mostrou que 84% dos pacientes que descobriram o HIV já em estágio avançado eram heterossexuais.

A pesquisa analisou 1.615 pessoas atendidas no Hospital Nossa Senhora da Conceição entre 2015 e 2024. Todos apresentavam condições graves relacionadas à infecção.

Do total, 407 pacientes, aproximadamente 25%, receberam o diagnóstico de HIV somente durante a hospitalização.

Entre aqueles que descobriram a infecção nesse momento, 49% eram homens heterossexuais. Muitos eram empregados, casados ou viviam em união estável e tinham filhos. Outros 35% eram mulheres heterossexuais, também predominantemente com filhos.

Apenas 10% dos diagnósticos tardios ocorreram entre pessoas pertencentes a minorias sexuais ou de gênero.

Percepção equivocada de risco atrasa a testagem

Durante décadas, campanhas sobre HIV concentraram parte de suas mensagens em grupos considerados mais vulneráveis. Essa abordagem teve importância histórica, mas também pode ter contribuído para a falsa percepção de que pessoas heterossexuais, casadas ou em relacionamentos estáveis estariam protegidas.

Quando alguém não se reconhece como parte de uma população sob risco, tende a procurar menos a testagem e pode não considerar a possibilidade de infecção diante de sintomas inespecíficos.

O diagnóstico tardio também pode ser favorecido pela ausência da oferta rotineira do teste nos serviços de saúde. Consultas, internações e atendimentos por infecções recorrentes representam oportunidades para investigar o HIV, mas nem sempre a testagem é incluída.

O que significa HIV avançado

Sem tratamento, o vírus compromete progressivamente os linfócitos CD4, células fundamentais para o funcionamento do sistema imunológico.

O estágio avançado pode ser identificado por contagens muito baixas de CD4 ou pela presença de doenças oportunistas, como pneumocistose, neurotoxoplasmose, tuberculose, meningite criptocócica e determinadas neoplasias.

Pacientes diagnosticados nessas condições apresentam maior risco de hospitalização, complicações, transmissão e morte.

O tratamento antirretroviral consegue controlar a multiplicação do vírus e permitir a recuperação imunológica. Quanto mais cedo ele é iniciado, melhores tendem a ser os resultados.

Testagem precisa alcançar toda a população

Os dados reforçam que a avaliação de risco não deve se basear apenas na orientação sexual, no estado civil ou na aparência do paciente.

Pessoas sexualmente ativas podem se beneficiar da testagem, especialmente diante de relações sem preservativo, múltiplas parcerias, diagnóstico de outra infecção sexualmente transmissível, exposição a sangue ou dúvidas sobre o histórico do parceiro.

O teste para HIV está disponível gratuitamente no SUS, em unidades básicas, centros de testagem e aconselhamento e outros serviços. Testes rápidos podem apresentar resultados em poucos minutos.

Em situações de exposição recente, a profilaxia pós-exposição pode reduzir o risco quando iniciada o mais rapidamente possível, preferencialmente nas primeiras horas e em até 72 horas.

Para pessoas com exposição continuada, a profilaxia pré-exposição é outra estratégia eficaz.

Diagnóstico não deve depender de identidade

A principal mensagem do estudo é que o HIV não está restrito a uma orientação sexual ou grupo social.

Campanhas de prevenção precisam alcançar a população geral, sem abandonar estratégias específicas para grupos com maior vulnerabilidade epidemiológica.

Normalizar a testagem como parte do cuidado de saúde pode reduzir o estigma e antecipar o tratamento. Perguntar sobre saúde sexual também precisa deixar de ser uma exceção e passar a integrar a avaliação clínica de maneira respeitosa.

Quando o diagnóstico ocorre somente durante uma internação grave, o sistema perdeu diversas oportunidades anteriores de identificar a infecção. Ampliar a testagem significa transformar essas oportunidades em cuidado.

Fonte: Medicina S/A, Grupo Hospitalar Conceição e estudo publicado na AIDS Research and Treatment.

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