O acidente com césio-137 ocorrido em Goiânia, em setembro de 1987, permanece como um dos episódios mais graves da história mundial envolvendo contaminação radioativa fora de instalações nucleares. O caso voltou recentemente à atenção pública com o lançamento da série Emergência Radioativa, que retrata os acontecimentos.
Na ocasião, dois catadores de materiais recicláveis encontraram uma máquina de radioterapia abandonada em uma clínica desativada na cidade de Goiânia. Sem conhecimento sobre os riscos envolvidos, desmontaram o equipamento e removeram um componente que continha material altamente radioativo.
O dispositivo abrigava cerca de 19 gramas de césio-137, substância utilizada em tratamentos contra o câncer, mas extremamente perigosa quando manipulada sem proteção adequada.
A cápsula foi posteriormente vendida a um ferro-velho, onde o material passou a ser manuseado e distribuído entre familiares e conhecidos, atraídos pelo brilho azulado emitido pela substância.
Disseminação da contaminação
Sem conhecimento sobre os riscos, diversas pessoas tiveram contato direto com o material radioativo. Fragmentos foram manipulados, tocados e até espalhados sobre a pele, em um cenário que ampliou rapidamente o alcance da contaminação.
Em poucos dias, moradores começaram a apresentar sintomas como vômitos, diarreia, tontura, febre e queda de cabelo. Inicialmente, os quadros foram interpretados como intoxicação alimentar ou reações alérgicas, o que atrasou o reconhecimento da causa real.
A suspeita de contaminação radioativa surgiu após a análise da cápsula por um físico, que identificou níveis extremamente elevados de radiação. A partir desse momento, as autoridades foram acionadas e iniciaram uma operação emergencial para contenção do desastre.
Resposta das autoridades e impacto na população
O episódio gerou pânico generalizado. Milhares de pessoas foram submetidas a triagem para detecção de contaminação, sendo encaminhadas para monitoramento, descontaminação ou tratamento especializado.
No total, mais de 110 mil pessoas foram examinadas, das quais 249 apresentaram níveis significativos de contaminação. Centenas precisaram permanecer em isolamento para tratamento e acompanhamento.
As medidas de contenção incluíram a demolição de imóveis, descarte de objetos contaminados e remoção de grandes volumes de solo e materiais. Estima-se que cerca de 6 mil toneladas de resíduos radioativos tenham sido coletadas e armazenadas em local apropriado fora da área urbana.
Vítimas e consequências
O acidente resultou em quatro mortes diretamente relacionadas à exposição ao césio-137, incluindo uma criança de seis anos que teve contato direto com o material.
Além das vítimas fatais, centenas de pessoas sofreram consequências físicas e psicológicas de longo prazo, enquanto milhares foram afetadas pelo impacto social e pelo estigma associado ao acidente.
O episódio também evidenciou falhas na gestão de resíduos radioativos e na fiscalização de equipamentos médicos, levando à revisão de protocolos e políticas de segurança no país.
Legado e repercussões
O desastre de Goiânia passou a ser referência internacional em acidentes radiológicos, sendo frequentemente citado em estudos sobre segurança nuclear e resposta a emergências.
Como consequência, o governo brasileiro instituiu medidas de apoio às vítimas, incluindo pensões vitalícias para os diretamente afetados e para profissionais envolvidos nas operações de emergência.
O caso permanece como um alerta sobre os riscos associados ao manuseio inadequado de materiais radioativos, a importância da informação e a necessidade de protocolos rigorosos de controle e descarte desses equipamentos.

