Uma técnica já utilizada na purificação de sangue para transfusões poderá ganhar uma nova aplicação no combate ao câncer. O método, que combina luz ultravioleta com riboflavina (vitamina B2) para inativar microrganismos, será testado como uma vacina terapêutica personalizada contra o câncer de ovário recorrente.
Conhecida como Mirasol, a tecnologia é empregada rotineiramente em bancos de sangue para reduzir o risco de transmissão de doenças. Agora, pesquisadores do City of Hope, na Califórnia, propõem adaptar o método para uso oncológico, utilizando células tumorais da própria paciente como base para a imunização.
A estratégia consiste em retirar células do tumor durante cirurgia, tratá-las com riboflavina e luz ultravioleta para inativação e, posteriormente, reintroduzi-las no organismo com o objetivo de estimular o sistema imunológico a reconhecer e combater a doença. Testes pré-clínicos realizados em camundongos e cães apresentaram resultados positivos, o que levou à autorização dos ensaios em humanos nos Estados Unidos em julho de 2025, com início previsto para janeiro deste ano.
A expectativa dos pesquisadores é que a abordagem funcione como uma vacina terapêutica individualizada. O principal objetivo inicial é avaliar a segurança do método e sua capacidade de induzir resposta imunológica. A técnica utiliza material do próprio tumor da paciente, removido cirurgicamente e tratado antes da reaplicação.
“A esperança é que isso retarde ou impeça a recaída, em combinação com outras terapias”, afirmou à revista Science o químico Ray Goodrich, um dos desenvolvedores do Mirasol. Goodrich trabalhou na criação da tecnologia há mais de 20 anos e, em 2018, cofundou a empresa PhotonPharma, responsável por adaptar o método para aplicações oncológicas.
Estudo em câncer de ovário
O estudo terá início neste mês no City of Hope, com patrocínio da PhotonPharma. Trata-se de um ensaio clínico de fase 1, que pretende recrutar oito pacientes com câncer epitelial de ovário recorrente. Todas as participantes passarão por cirurgia para remoção de tumores.
As células tumorais serão tratadas com riboflavina e luz ultravioleta e combinadas a um adjuvante imunomodulador para a produção de uma vacina personalizada. Cada paciente receberá três doses, com monitoramento rigoroso de possíveis efeitos colaterais e da resposta imunológica.
Os pesquisadores buscam verificar se a abordagem baseada em luz ultravioleta pode induzir uma resposta imune mais intensa. Em estudos com animais, embora os resultados tenham sido positivos, os benefícios observados foram modestos. O acompanhamento clínico incluirá coletas periódicas de sangue para avaliação da resposta imunológica e da carga tumoral ao longo das semanas.
A conclusão primária do estudo está prevista para junho, com término estimado para dezembro deste ano, quando os resultados finais deverão ser divulgados.
Da transfusão ao tratamento do câncer
O Mirasol utiliza riboflavina ativada por luz ultravioleta para se ligar ao DNA e ao RNA das células, causando danos ao material genético de microrganismos e impedindo sua reprodução. Embora eficaz para inativar patógenos, o processo também afeta plaquetas e células sanguíneas, motivo pelo qual pacientes que recebem sangue tratado frequentemente necessitam de transfusões adicionais.
Segundo Goodrich, a proposta aproveita décadas de experiência em segurança transfusional para explorar um possível benefício oncológico. A ideia é que o tratamento das células tumorais gere novas proteínas, conhecidas como neoantígenos, capazes de ajudar o sistema imunológico a identificar e atacar com mais precisão as células cancerígenas.

