Como médicos atendem feridos em zonas de guerra e conflitos armados

Atuar como profissional de saúde em áreas de conflito armado significa lidar diariamente com cenários de extrema pressão, recursos limitados e grande volume de pacientes gravemente feridos. Explosões, ferimentos por arma de fogo e traumas complexos fazem parte da rotina de equipes médicas que trabalham em missões humanitárias.

Em entrevistas ao portal Metrópoles, profissionais de saúde envolvidos em missões do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) relataram como funciona o atendimento médico em zonas de guerra e quais são os principais desafios enfrentados nesses contextos.

O CICV é uma organização humanitária independente que atua em conflitos armados e outras situações de violência, oferecendo assistência médica e apoio a sistemas de saúde em regiões afetadas.

Rotina em hospitais de guerra

Em áreas de conflito, o atendimento médico costuma ocorrer em hospitais improvisados ou em estruturas adaptadas para lidar com um grande número de pacientes em curto período de tempo.

A fisioterapeuta Martina Cantieni, que atua no hospital do CICV em Nairóbi, no Quênia, explica que a rotina dentro dessas unidades depende muito das condições disponíveis.

“Sempre que possível, tentamos manter uma rotina. O dia geralmente começa com uma reunião interdisciplinar, seguida de rondas e atividades cirúrgicas”, relata.

Pacientes com quadros mais graves recebem prioridade. Após procedimentos cirúrgicos, muitos indivíduos precisam iniciar rapidamente o processo de reabilitação, incluindo fisioterapia respiratória, fundamental para prevenir complicações pulmonares.

Segundo Martina, a limitação de espaço hospitalar também exige agilidade na recuperação dos pacientes. “O espaço hospitalar é muitas vezes limitado, por isso os pacientes precisam se recuperar e seguir em frente o mais rápido possível para abrir espaço para os recém-chegados”, explica.

Diferenças entre hospitais convencionais e hospitais de guerra

Trabalhar em regiões afetadas por conflitos apresenta desafios que raramente são encontrados em hospitais tradicionais.

Entre os principais obstáculos estão a escassez de equipamentos, limitações de pessoal e a possibilidade de receber um grande número de vítimas simultaneamente.

Além disso, as equipes médicas precisam estar constantemente atentas ao contexto de segurança e às condições políticas da região onde atuam.

Problemas de infraestrutura também podem interferir no atendimento. Falhas no fornecimento de energia, escassez de materiais e dificuldades logísticas exigem que profissionais adaptem continuamente os protocolos de cuidado.

Triagem de vítimas em cenários de guerra

Quando hospitais recebem dezenas ou centenas de vítimas ao mesmo tempo, o atendimento segue protocolos específicos de triagem.

O médico especialista em emergência Sandy Inglis explica que os pacientes são classificados conforme a gravidade das lesões:

  • Área verde: pacientes com ferimentos leves que conseguem caminhar.
  • Área amarela: pacientes com lesões importantes, como fraturas.
  • Área vermelha: casos críticos que necessitam de atendimento imediato.
  • Área azul: pacientes sem chance de sobrevivência, que recebem cuidados paliativos.
  • Área preta: vítimas que já morreram.

Esse sistema permite que as equipes priorizem rapidamente os casos mais graves.

Entre os ferimentos mais comuns em zonas de conflito estão lesões provocadas por armas de fogo, lacerações profundas, queimaduras, fraturas graves e ferimentos causados por estilhaços de explosões.

Segundo Inglis, explosões representam um risco particular porque fragmentos metálicos podem atingir múltiplas regiões do corpo simultaneamente.

“Vimos muitos ferimentos abdominais, pequenos pedaços de metal penetrando órgãos e causando sangramentos graves”, relata o médico.

Volume de vítimas e escassez de recursos

Um dos maiores desafios para as equipes médicas em cenários de guerra é o grande número de pacientes que podem chegar ao hospital ao mesmo tempo.

Em algumas situações, o fluxo de vítimas pode ultrapassar a capacidade operacional das unidades de saúde.

“In Gaza, tivemos momentos em que até 250 pacientes chegaram ao mesmo tempo, o que coloca enorme pressão sobre funcionários, medicamentos e equipamentos”, relata Inglis.

Além disso, equipamentos essenciais para o atendimento de trauma, como aparelhos de ultrassom ou sistemas de estabilização de fraturas, nem sempre conseguem chegar às áreas afetadas devido a bloqueios logísticos ou restrições em fronteiras.

Dependendo da intensidade do conflito, o atendimento pode ocorrer em hospitais fixos ou em hospitais de campanha montados para realizar procedimentos de emergência.

Entre as cirurgias realizadas com frequência nesses contextos estão laparotomias, toracotomias, amputações e reparos complexos de ferimentos traumáticos.

Alguns procedimentos mais complexos, como determinadas cirurgias vasculares ou neurocirurgias, precisam ser encaminhados para centros médicos com unidades de terapia intensiva.

Neutralidade e preparo das equipes

Um dos princípios fundamentais do trabalho humanitário é a neutralidade. Profissionais de saúde que atuam em missões humanitárias atendem qualquer paciente, independentemente de sua origem ou posição no conflito.

“Tratamos qualquer pessoa que chegue ao hospital, independentemente de quem seja ou de qual lado esteja”, afirma Inglis.

Antes de serem enviados para zonas de guerra, esses profissionais geralmente possuem experiência prévia em medicina de emergência e trauma. Além disso, passam por treinamentos específicos, incluindo simulações de atendimento a múltiplas vítimas.

Impacto emocional do trabalho

O impacto psicológico também faz parte da realidade desses profissionais.

Devido à intensidade do trabalho e ao nível de estresse envolvido, as missões costumam ter duração limitada.

No hospital de campanha do CICV em Gaza, por exemplo, os períodos de atuação inicialmente eram de seis semanas, mas foram reduzidos para quatro semanas em momentos de maior intensidade do conflito.

“São ambientes extremamente estressantes, por isso há apoio constante entre os profissionais e acompanhamento psicológico disponível”, explica Inglis.

Logística para garantir o funcionamento dos hospitais

Para que o atendimento médico seja possível em áreas de guerra, a logística de suprimentos desempenha papel fundamental.

De acordo com Catherine Sandy, chefe adjunta da Unidade de Saúde do CICV, a organização conta com uma rede logística internacional composta por armazéns regionais e sistemas digitais de gerenciamento de materiais.

As equipes que atuam no campo registram suas necessidades em uma plataforma interna, permitindo que o departamento logístico organize rapidamente a compra e o transporte de medicamentos, equipamentos e materiais médicos.

Também são utilizados kits padronizados de emergência, como kits de trauma e kits específicos para ferimentos causados por armas.

Mesmo diante de limitações estruturais e riscos constantes, profissionais de saúde continuam desempenhando um papel fundamental ao oferecer assistência médica em regiões devastadas por conflitos armados.

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