O uso da cannabis medicinal tem ganhado espaço crescente na prática clínica no Brasil. Dados recentes indicam que médicos brasileiros vêm incorporando progressivamente os canabinoides em seus protocolos terapêuticos, refletindo uma mudança relevante no paradigma da medicina nacional.
Uma pesquisa conduzida pela Cannect revelou que, em média, 6 em cada 10 pacientes atendidos por médicos participantes recebem indicação de tratamento com cannabis medicinal.
O levantamento ouviu 117 profissionais de diversas especialidades, a partir de um questionário disponibilizado por duas semanas para uma base ativa de aproximadamente 2.400 médicos de diferentes regiões do país.
Os dados demonstram que 40% dos médicos já prescrevem cannabis há pelo menos três anos, enquanto 35% iniciaram essa prática nos últimos 12 meses, evidenciando uma expansão acelerada na adoção dessa terapêutica.
Segundo Allan Paiotti, CEO da Cannect, esse avanço está diretamente relacionado à qualificação médica e ao aumento do acesso à informação científica de qualidade, além da evolução das evidências sobre os canabinoides.
Perfil dos prescritores e especialidades envolvidas
A Clínica Médica se destaca como a especialidade com maior representatividade entre os prescritores, correspondendo a 32% dos profissionais. Em seguida, aparecem a Medicina de Família e Comunidade (14%) e a Psiquiatria (10%).
As especialidades odontológicas também apresentam participação relevante, totalizando 10% dos prescritores, o que reforça a inserção da cannabis medicinal em diferentes contextos clínicos. Outras áreas como Ortopedia (3,4%) e Neurologia (1,7%) completam o panorama, evidenciando a transversalidade dessa abordagem terapêutica.
De acordo com Rafael Pessoa, diretor médico da Cannect, a cannabis deixou de ser um recurso restrito a poucas especialidades e passou a integrar a prática clínica em áreas diversas, refletindo maior maturidade científica e segurança na individualização do tratamento.
Formas de prescrição e estratégias clínicas
O óleo sublingual permanece como a principal forma de utilização da cannabis, sendo disponibilizado em frascos conta-gotas.
A pesquisa mostra que 50% dos médicos preferem iniciar o tratamento com frascos de 30 mL, visando facilitar a titulação e adaptação do paciente. Outros 28% optam por frascos de 60 mL, buscando equilíbrio entre custo e praticidade. Apenas 15% iniciam diretamente com frascos de 120 mL, geralmente destinados a pacientes em fase de manutenção terapêutica.
Observa-se ainda variação conforme a especialidade: psiquiatras demonstram maior propensão ao uso de frascos de maior volume, enquanto profissionais de Odontologia e Ortopedia tendem a optar por volumes menores, compatíveis com tratamentos de curta duração.
Integração com suplementos nutricionais
A associação entre cannabis medicinal e suplementação nutricional configura-se como um campo em expansão dentro da medicina integrativa.
Os dados indicam que 50% dos médicos prescrevem suplementos de forma ocasional, enquanto 21% o fazem regularmente. Apenas 29% não utilizam essa abordagem em seus protocolos.
Os sintomas mais frequentemente manejados com suplementação incluem ansiedade e estresse (59%), distúrbios do sono (57%) e dor crônica (49%). Também são citadas queixas relacionadas à performance cognitiva (37%) e imunidade (35%).
Entre as combinações consideradas mais promissoras, destacam-se melatonina, ômega-3, palmitoiletanolamida (PEA) e magnésio, além de complexos vitamínicos, cúrcuma e cogumelos funcionais.
Barreiras e oportunidades na prática clínica
Apesar do interesse crescente, a adoção da suplementação associada à cannabis ainda enfrenta desafios. Entre os médicos entrevistados, 62% demonstram interesse em realizar essa associação, mas ainda não a incorporaram à prática clínica.
Os principais obstáculos relatados incluem o custo para o paciente (51%), a falta de informação técnica (44%), a desconfiança quanto à qualidade dos produtos (21%) e a complexidade da prescrição (6%).
Além disso, 22% dos profissionais afirmam não possuir conhecimento suficiente sobre as sinergias entre cannabis e suplementos, evidenciando uma importante lacuna na educação médica continuada.
Iniciativas educacionais têm buscado suprir essa demanda. A própria Cannect, por meio da plataforma Dr. Cannabis, já promoveu treinamentos para mais de 11 mil médicos, fortalecendo a prática baseada em evidências.
Para especialistas, o cenário atual demonstra não apenas a expansão da prescrição, mas também o amadurecimento da classe médica na utilização da cannabis medicinal. A tendência é que, com maior acesso à informação e formação continuada, essa abordagem terapêutica continue a se consolidar, beneficiando pacientes com condições crônicas e complexas.

