O cogumelo que provoca “alucinações liliputianas” intriga cientistas e desafia a neurociência

Todos os anos, médicos de um hospital na província de Yunnan, no sudoeste da China, se preparam para atender centenas de pacientes com um sintoma incomum: visões vívidas de figuras humanas minúsculas, semelhantes a elfos, que atravessam portas, escalam paredes e se penduram em móveis. O fenômeno tem uma causa bem conhecida na região — o consumo inadequado de um cogumelo chamado Lanmaoa asiatica.

O L. asiatica é um fungo que cresce em simbiose com pinheiros e é amplamente consumido como alimento em Yunnan, valorizado por seu sabor intenso e rico em umami. Ele é vendido em mercados locais, servido em restaurantes e preparado em residências, especialmente durante a temporada de cogumelos, entre junho e agosto. No entanto, quando não é devidamente cozido, pode provocar intensas alucinações.

Segundo o biólogo Colin Domnauer, doutorando da Universidade de Utah, o risco é amplamente conhecido pela população local. “Em um restaurante de hot pot de cogumelos, o atendente acionou um cronômetro de 15 minutos e avisou: ‘Não comam antes de o tempo acabar ou vocês podem ver pessoinhas’”, relata o pesquisador, que estuda a espécie há anos.

Apesar de sua fama regional, o L. asiatica permaneceu por décadas como um enigma científico. Relatos acadêmicos sobre o fungo são escassos. Um estudo publicado em 1991 por pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências descreveu pacientes que apresentaram “alucinações liliputianas” após ingerirem cogumelos na região — termo psiquiátrico usado para definir a percepção de figuras humanas, animais ou fantásticas em tamanho reduzido.

O fenômeno já havia sido observado em outros contextos históricos. Na década de 1960, o etnomicólogo Gordon Wasson e o botânico Roger Heim investigaram relatos semelhantes na Papua Nova Guiné, onde moradores descreviam um cogumelo capaz de causar um estado conhecido como “loucura do cogumelo”. Amostras chegaram a ser analisadas por Albert Hofmann, descobridor do LSD, mas nenhuma substância psicodélica conhecida foi identificada na época.

Somente em 2015 o Lanmaoa asiatica foi formalmente descrito e nomeado, ainda sem explicações claras sobre suas propriedades psicoativas. Desde então, Domnauer vem liderando esforços para desvendar o mistério. Em 2023, ele viajou a Yunnan, coletou amostras indicadas por comerciantes locais e confirmou, por meio de sequenciamento genético, a identidade da espécie.

Em estudos ainda em processo de publicação, extratos do cogumelo administrados a camundongos produziram alterações comportamentais marcantes, incluindo hiperatividade seguida de um prolongado estado de torpor. Relatos semelhantes também surgiram nas Filipinas, onde testes genéticos confirmaram que cogumelos visualmente distintos pertenciam à mesma espécie.

O composto químico responsável pelas alucinações permanece desconhecido. Testes preliminares indicam que ele não está relacionado à psilocibina nem a outros psicodélicos conhecidos. As experiências associadas ao L. asiatica também se destacam pela duração incomum, podendo se estender por 12 a 24 horas, com casos de internação hospitalar prolongada.

Outro aspecto intrigante é a consistência das alucinações. Diferentemente de outros psicodélicos, que produzem experiências altamente subjetivas, o L. asiatica provoca visões semelhantes em diferentes indivíduos, quase sempre envolvendo “pessoas pequenas”. Para Domnauer, essa previsibilidade pode oferecer pistas valiosas sobre os mecanismos cerebrais envolvidos na percepção e na consciência.

Compreender esse cogumelo pode ajudar a elucidar a origem das alucinações liliputianas espontâneas, condição rara descrita pela primeira vez em 1909 e associada, em alguns casos, a desfechos neurológicos graves. Pesquisadores acreditam que o estudo do L. asiatica pode abrir caminhos para novas abordagens terapêuticas e ampliar o entendimento da relação entre cérebro, percepção e realidade.

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