A edição de 2026 do congresso anual da American Society of Clinical Oncology (ASCO), considerado o maior evento de oncologia do mundo, reuniu milhares de especialistas em Chicago entre os dias 29 de maio e 2 de junho. Com mais de 7 mil estudos científicos apresentados, o encontro reforçou uma tendência cada vez mais evidente na medicina oncológica: tratamentos mais personalizados, guiados por características moleculares dos tumores e focados não apenas na sobrevida, mas também na qualidade de vida dos pacientes.
Os resultados divulgados durante o congresso apontam para uma nova fase da oncologia, na qual a compreensão genética dos tumores, o uso de tecnologias inovadoras e a atenção aos aspectos físicos e emocionais dos pacientes passam a desempenhar papel central nas decisões terapêuticas.
Novo medicamento quase dobra sobrevida no câncer de pâncreas
Um dos momentos mais marcantes do congresso foi a apresentação dos resultados do estudo RASolute 302, que avaliou o medicamento experimental daraxonrasib em pacientes com câncer de pâncreas metastático previamente tratados.
Considerado um dos tumores mais agressivos e de pior prognóstico da oncologia, o câncer de pâncreas historicamente apresenta poucas opções terapêuticas eficazes. Os resultados apresentados mostraram que pacientes tratados com o novo medicamento alcançaram uma sobrevida média de 13,2 meses, praticamente o dobro dos 6,7 meses observados com a quimioterapia convencional.
A apresentação foi recebida com grande entusiasmo pela comunidade científica e foi considerada um dos principais avanços do congresso.
Nova geração de terapia celular simplifica tratamento contra o câncer
Outro destaque foi o estudo inMMyCAR, que propõe uma abordagem inovadora para a terapia CAR-T.
Tradicionalmente, esse tratamento exige a coleta de células de defesa do próprio paciente, que são enviadas para laboratórios especializados, modificadas geneticamente e posteriormente reinfundidas. Todo esse processo pode levar semanas e envolve alta complexidade logística.
A nova estratégia busca realizar essa reprogramação diretamente dentro do organismo do paciente. Nos seis primeiros casos tratados, todos os participantes apresentaram resposta ao tratamento já no primeiro mês, sem ocorrência das complicações neurológicas frequentemente associadas ao CAR-T convencional.
Embora ainda em fase inicial de desenvolvimento, a tecnologia representa uma possível simplificação de uma das terapias mais avançadas atualmente disponíveis na oncologia.
Tratamento antes da cirurgia reduz risco de metástases no câncer de próstata
O estudo PROTEUS avaliou uma mudança importante na estratégia terapêutica para pacientes com câncer de próstata localizado de alto risco.
A pesquisa analisou o uso da apalutamida associada à terapia hormonal durante seis meses antes da cirurgia e por mais seis meses após o procedimento. Mais de 2.100 pacientes participaram do estudo.
Os resultados mostraram que um número maior de pacientes chegou ao momento da cirurgia sem evidências detectáveis de células tumorais no tecido removido. Além disso, houve redução de 20% no risco de desenvolvimento de metástases e adiamento superior a três anos na necessidade de tratamentos complementares.
Os achados sugerem que a intensificação precoce do tratamento pode melhorar significativamente os resultados clínicos desses pacientes.
Dieta mediterrânea reduz risco de recorrência no câncer de mama
A relação entre estilo de vida e câncer ganhou destaque com o estudo MedDiet, conduzido em sete centros italianos.
A pesquisa avaliou uma combinação de dieta mediterrânea de baixo índice glicêmico, prática diária de caminhadas rápidas e suplementação de vitamina D em mulheres com câncer de mama inicial.
Entre as pacientes com tumores hormônio-positivos que aderiram de forma consistente ao programa, foi observada uma redução de 76% no risco de recorrência da doença.
Além da diminuição do risco de retorno do câncer, as participantes também apresentaram maior perda de peso e melhora dos indicadores relacionados à síndrome metabólica, fatores que podem influenciar diretamente o ambiente hormonal associado ao crescimento tumoral.
Exercício físico remoto melhora qualidade de vida durante imunoterapia
O Brasil também teve destaque no congresso por meio de um estudo que acompanhou 70 pacientes com câncer avançado em tratamento com imunoterapia.
Durante 12 semanas, os participantes realizaram um programa de atividade física supervisionada à distância por telemedicina. Os resultados demonstraram melhora significativa na qualidade de vida e redução de sintomas relacionados ao tratamento.
Um dos achados mais relevantes foi a redução do medo de recorrência ou progressão da doença, um dos aspectos emocionais mais frequentes entre pacientes oncológicos e que muitas vezes recebe pouca atenção durante o acompanhamento clínico.
Os resultados reforçam o potencial das intervenções remotas como ferramenta complementar no cuidado integral ao paciente com câncer.
Telemedicina reduz internações em pacientes em cuidados paliativos
Outro estudo brasileiro avaliou 116 pacientes em cuidados paliativos que realizaram consultas por telemedicina nos últimos 30 dias de vida.
Os pesquisadores observaram redução nas taxas de hospitalização, menor número de internações em unidades de terapia intensiva e diminuição de procedimentos invasivos sem benefício clínico relevante nessa fase da doença.
Os resultados reforçam o papel da telemedicina como estratégia capaz de oferecer suporte adequado, respeitando os desejos dos pacientes e promovendo maior conforto nos momentos finais da vida.
Biópsia líquida amplia possibilidades, mas ainda exige capacitação médica
A biópsia líquida continua ganhando espaço na oncologia moderna. O exame utiliza uma simples amostra de sangue para detectar fragmentos de DNA tumoral circulante, permitindo identificar alterações moleculares sem a necessidade de procedimentos invasivos.
A pesquisa latino-americana OMEGA ouviu 178 oncologistas, dos quais 85% eram brasileiros. Embora mais de 70% já utilizem a tecnologia na prática clínica, apenas 30% relataram sentir-se totalmente confiantes na interpretação dos resultados.
Entre os profissionais que receberam treinamento formal, a utilização da técnica chegou a 87%, demonstrando a importância da educação continuada para ampliar a adoção segura dessa ferramenta.
Teste genômico pode evitar quimioterapia em câncer de mama
Outro estudo de grande impacto foi o OPTIMA, que avaliou o papel dos testes genômicos em pacientes com câncer de mama receptor hormonal positivo e HER2 negativo.
Os pesquisadores demonstraram que mulheres classificadas como de baixo risco molecular por meio da análise de 50 genes puderam dispensar a quimioterapia sem prejuízo às chances de cura, mesmo quando apresentavam características clínicas consideradas de alto risco.
Os resultados reforçam uma das principais tendências da oncologia moderna: oferecer tratamentos cada vez mais individualizados, evitando intervenções desnecessárias e reduzindo os efeitos colaterais sem comprometer a eficácia terapêutica.
Uma nova visão da oncologia
Ao final do congresso, a principal mensagem deixada pelo ASCO 2026 foi clara: o sucesso do tratamento oncológico não deve ser medido apenas pelo aumento da sobrevida.
Os estudos apresentados demonstram que a oncologia caminha para uma abordagem mais personalizada, baseada na biologia específica de cada tumor e focada na preservação da qualidade de vida ao longo de toda a jornada do paciente.
Mais do que tratar a doença, a medicina busca cada vez mais oferecer tratamentos que permitam viver melhor durante e após o enfrentamento do câncer.


