A Copa do Mundo de 2026 começou com uma preocupação que vai além do desempenho dentro de campo: a segurança dos atletas diante das altas temperaturas. Com previsão de calor intenso em boa parte das sedes do torneio, a FIFA reforçou os protocolos de hidratação e resfriamento para reduzir os riscos associados ao estresse térmico durante as partidas.
A medida conhecida como pausa para hidratação, ou cooling break, passou a ter papel central nas discussões sobre saúde no esporte. Em jogos disputados sob sol forte, especialmente em gramados com mais de 100 metros de extensão e exigência física elevada, o risco de sobrecarga térmica aumenta mesmo entre atletas de alto rendimento.
O Mundial de 2026, realizado em cidades do Canadá, México e Estados Unidos, ocorre em um cenário de alerta climático. Estudos citados por especialistas indicam que 14 das 16 sedes podem enfrentar níveis de calor considerados perigosos durante a competição. Essa projeção levou a entidade máxima do futebol a intensificar medidas preventivas.
A base técnica para a adoção das pausas é o índice WBGT, sigla em inglês para Wet-Bulb Globe Temperature. Esse indicador avalia o estresse térmico de forma mais ampla do que a temperatura comum, pois considera não apenas o calor do ar, mas também a umidade, a velocidade do vento e a radiação solar.
Esse conjunto de fatores é importante porque o corpo humano não responde apenas à temperatura medida no termômetro. Em ambientes úmidos, com pouco vento e forte exposição ao sol, a dissipação de calor fica prejudicada. Nessas condições, o organismo precisa trabalhar mais para manter a temperatura interna dentro de níveis seguros.
Dados observados durante o Mundial de Clubes de 2025 mostraram que o rendimento físico dos jogadores pode cair de forma significativa a partir de 28°C de WBGT. Nessas condições, há redução na distância total percorrida, queda na intensidade das corridas e maior risco de fadiga.
Pelas normas atuais, as pausas de três minutos em cada tempo de jogo tornam-se obrigatórias quando o índice WBGT atinge ou ultrapassa 32°C. O objetivo é permitir que os atletas se hidratem, reduzam a temperatura corporal e tenham condições mínimas de recuperação antes de retomar a atividade intensa.
Apesar da regra, atletas, pesquisadores e especialistas em medicina esportiva defendem que os protocolos sejam ampliados. Uma das propostas é aumentar a duração das pausas para seis minutos, especialmente em jogos disputados sob calor extremo. A justificativa é que o intervalo atual pode ser insuficiente para reduzir adequadamente a temperatura central dos jogadores.
A principal preocupação médica é o golpe de calor por esforço, uma emergência potencialmente fatal. A condição ocorre quando o corpo perde a capacidade de controlar sua temperatura interna durante atividade física intensa. Sem intervenção rápida, pode haver comprometimento neurológico, falência de órgãos e risco de morte.
Segundo especialistas, o golpe de calor associado à hipotensão pode apresentar taxa de mortalidade de até 33%. Por isso, a prevenção é considerada fundamental, especialmente em competições de alta intensidade, com grande exposição ao calor e pouco tempo de recuperação entre os esforços.
Além da ingestão de água, os protocolos da FIFA incluem outras estratégias de resfriamento. Entre elas estão o uso de toalhas imersas em gelo, áreas de descanso climatizadas e bancos de reservas com controle de temperatura. Essas medidas buscam reduzir a carga térmica acumulada durante os jogos.
A discussão também reflete uma mudança mais ampla no esporte de elite. Com o avanço das mudanças climáticas e o aumento da frequência de eventos de calor extremo, competições internacionais precisam adaptar suas regras para proteger atletas, comissões técnicas, árbitros e torcedores.
Para especialistas, o desafio será equilibrar calendário, espetáculo esportivo e segurança. A pausa para hidratação, antes vista como uma interrupção pontual, passa a ser uma ferramenta essencial de prevenção em um cenário no qual o calor extremo tende a se tornar cada vez mais frequente.

