A possibilidade de formação de um novo episódio de El Niño até o fim de 2026 acendeu um alerta entre especialistas em saúde pública. O fenômeno climático, associado ao aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico Equatorial, pode alterar o padrão de chuvas e temperaturas em diferentes regiões do planeta, criando condições mais favoráveis para a proliferação do Aedes aegypti.
O mosquito é transmissor de doenças como dengue, zika e chikungunya. Em períodos de calor intenso e chuvas frequentes, aumenta o risco de acúmulo de água parada em ambientes urbanos, o que favorece a formação de criadouros e amplia a circulação do vetor.
Um boletim da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos, conhecida pela sigla NOAA, indica a possibilidade de transição para o El Niño entre maio e julho, com chance estimada em 61%. Para o fim de 2026, a probabilidade de ocorrência de algum nível do fenômeno ultrapassa 90%, segundo a projeção.
Embora ainda predominem condições neutras no oceano, o cenário é acompanhado com atenção porque o fim do ano coincide, em muitas regiões do Brasil, com a chegada de períodos de chuvas mais fortes. Essa combinação pode aumentar a presença do Aedes aegypti e dificultar o controle das arboviroses.
Segundo a infectologista Rosana Richtmann, diretora da Comissão de Controle de Infecções do Hospital e Maternidade Santa Joana, em São Paulo, a vigilância precisa ser contínua. Ela explica que mudanças climáticas podem acelerar o ciclo de vida do mosquito, enquanto alterações no regime de chuvas ampliam a quantidade de locais favoráveis à reprodução.
A especialista reforça que grande parte das transmissões ocorre dentro ou nas proximidades das residências. Por isso, a prevenção não deve se limitar aos períodos de epidemia. A eliminação de focos de água parada, a limpeza de recipientes, o fechamento adequado de caixas d’água e o cuidado com vasos, calhas, ralos e reservatórios continuam sendo medidas essenciais.
Além das ações ambientais, o uso de repelentes, inseticidas e outras estratégias de proteção individual pode ajudar a reduzir o contato com o mosquito. Para especialistas, o enfrentamento da dengue depende da combinação entre vigilância pública, participação da população e adoção regular de medidas preventivas.
A executiva de controle de pragas da SBP, Letícia Pires, afirma que a atenção deve ser intensificada nos próximos meses. Para ela, informação, mudança de hábitos e uso de soluções eficazes são fundamentais para diminuir o impacto da dengue no país.
O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento irregular das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Essa alteração interfere na circulação atmosférica tropical e pode modificar padrões de chuva, temperatura e eventos extremos em diferentes regiões.
Apesar de ser um fenômeno conhecido pela climatologia há décadas, ainda existem dificuldades para prever com precisão sua intensidade e seus efeitos locais. Em países de grande extensão territorial, como o Brasil, os impactos podem variar bastante entre as regiões.
A preocupação ocorre em um momento em que o país ainda convive com as consequências da pior epidemia de dengue de sua história recente. Em 2024, o Brasil registrou 4.013.746 casos prováveis da doença, 3.809 mortes confirmadas e 232 óbitos em investigação.
Entre as medidas adotadas para ampliar a resposta à doença, o Ministério da Saúde incorporou o teste rápido para diagnóstico da dengue à tabela de procedimentos custeados pelo Sistema Único de Saúde. A iniciativa busca acelerar a identificação dos casos e melhorar o manejo clínico, especialmente em períodos de alta transmissão.
O tema também ganhou repercussão após a suspensão temporária da vacina contra a dengue desenvolvida pelo Instituto Butantan. O Ministério da Saúde informou na última segunda-feira, dia 8, que ainda não há prazo definido para a conclusão da investigação sobre eventos adversos registrados após a aplicação do imunizante.
Entre os casos analisados, 42 eventos adversos graves foram notificados. Três deles receberam atenção especial das autoridades sanitárias e seguem em investigação aprofundada. A pasta reforça que ainda não é possível afirmar que os episódios tenham sido causados pela vacina.
Segundo o Ministério da Saúde, a proximidade temporal entre a vacinação e o aparecimento dos sintomas não comprova, por si só, relação de causa e efeito. A suspensão foi adotada como medida preventiva, enquanto os sistemas de vigilância avaliam os dados disponíveis.
A vacina atualmente oferecida pelo SUS para crianças e adolescentes de 10 a 14 anos não foi afetada por essa interrupção. A suspensão envolve apenas a vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan, que estava sendo usada em grupos específicos e em estratégias-piloto.
Diante da possível influência climática do El Niño, do histórico recente de alta transmissão e dos desafios relacionados à vacinação, especialistas reforçam que o controle da dengue deve permanecer como prioridade. A prevenção dentro das casas, o monitoramento dos casos e a preparação dos serviços de saúde serão pontos centrais para reduzir o risco de novos surtos.

