Estudo pretende acompanhar mais de 8,5 mil voluntários e avaliar se a combinação de três medicamentos pode reduzir eventos cardiovasculares em pessoas de risco baixo a moderado
Uma pesquisa conduzida no Brasil busca 8.518 voluntários para avaliar uma nova estratégia de prevenção do acidente vascular cerebral e do declínio cognitivo. O estudo PROMOTE investigará se uma polipílula, associada ou não a uma ferramenta digital de orientação sobre hábitos de vida, pode proteger pessoas que ainda não tiveram doenças cardiovasculares.
A cápsula reúne três medicamentos: valsartana 80 mg e anlodipino 5 mg, utilizados no controle da pressão arterial, e rosuvastatina 10 mg, indicada para reduzir o colesterol e o risco cardiovascular.
A proposta não é tratar pessoas que já sofreram um AVC. O objetivo é agir antes do primeiro evento, principalmente entre indivíduos que apresentam pressão arterial limítrofe e fatores relacionados ao estilo de vida, mas que frequentemente não são considerados de alto risco pelos modelos tradicionais.
Quem poderá participar
O estudo pretende incluir adultos entre 50 e 75 anos, sem histórico de AVC, ataque isquêmico transitório ou doença cardiovascular. Os participantes devem apresentar pressão arterial sistólica entre 121 e 139 mmHg e pelo menos um fator de risco relacionado ao estilo de vida, como tabagismo, excesso de peso, sedentarismo ou alimentação inadequada.
Pessoas com diabetes, hipercolesterolemia importante ou que já utilizam determinados anti-hipertensivos e estatinas não fazem parte do público previsto pelo protocolo.
Os participantes serão distribuídos entre grupos que receberão a polipílula ou placebo. Outra parte da pesquisa avaliará o uso do Stroke Riskometer, aplicativo que estima o risco de AVC e apresenta orientações para mudanças no estilo de vida.
O acompanhamento deverá durar três anos e envolver 80 unidades de saúde vinculadas a 20 centros de pesquisa distribuídos pelas cinco regiões do Brasil.
Primeira etapa apresentou resultados promissores
A fase inicial foi realizada em unidades de atenção primária de Porto Alegre e envolveu aproximadamente 370 pessoas. O objetivo foi avaliar a viabilidade da estratégia, a adesão ao tratamento, os possíveis eventos adversos e mudanças em fatores de risco cardiovascular.
Após nove meses, os pesquisadores observaram redução da pressão arterial e melhora de indicadores relacionados à saúde cardiovascular. O uso combinado da polipílula e da ferramenta digital apresentou os resultados mais favoráveis nessa etapa inicial.
Esses achados, entretanto, ainda não demonstram que a estratégia previne efetivamente o AVC. Essa resposta dependerá da nova fase, com uma população maior e acompanhamento prolongado.
Por que a estratégia pode ser importante
A hipertensão, o colesterol elevado, o tabagismo, o sedentarismo e a alimentação inadequada estão entre os principais fatores modificáveis associados ao AVC. Ainda assim, muitos eventos acontecem em pessoas classificadas inicialmente como de risco baixo ou moderado.
A reunião de diferentes medicamentos em uma única cápsula pode facilitar a adesão, reduzir a quantidade de comprimidos utilizados diariamente e ampliar o alcance das estratégias preventivas na atenção primária.
Antes de uma eventual incorporação ao SUS, será necessário comprovar que a abordagem realmente reduz AVC, infarto, declínio cognitivo e mortes cardiovasculares sem produzir uma quantidade desproporcional de efeitos adversos.
A polipílula utilizada no estudo não deve ser empregada por conta própria. Os medicamentos que compõem a fórmula apresentam contraindicações, interações e necessidade de acompanhamento clínico.
Fontes: Agência Brasil, protocolo do estudo PROMOTE e artigo sobre o desenho da pesquisa publicado na revista Neuroepidemiology.

