Estudo encontrou cyberbullying, exposição a conteúdo nocivo, conflitos pelo acesso ao celular e interações sexuais de risco em 19,2% dos atendimentos
Problemas relacionados a mídias digitais ou dispositivos estavam presentes em quase uma a cada cinco crises psiquiátricas pediátricas analisadas por pesquisadores nos Estados Unidos.
O estudo revisou mais de 3.700 atendimentos de crianças e adolescentes entre seis e 17 anos em um grande hospital pediátrico terciário. Os registros foram realizados entre 2021 e 2022.
Os pesquisadores identificaram fatores digitais em 19,2% dos encontros. Entre eles estavam cyberbullying, exposição a conteúdo de alto risco, uso excessivo, conflitos familiares relacionados ao acesso ao aparelho e interações sexuais on-line potencialmente perigosas.
| Perguntar apenas quantas horas a criança passa diante da tela pode ser insuficiente. Em uma avaliação de crise, também importa compreender o que acontece on-line, com quem ela interage e qual função o dispositivo ocupa naquele momento.
ASSOCIAÇÃO COM MAIOR GRAVIDADE
Os atendimentos envolvendo problemas digitais apresentaram maior frequência de ideação suicida e recomendação de internação psiquiátrica.
Esses pacientes também tiveram maior probabilidade de retornar ao serviço por outras crises durante o período estudado.
Transtornos do humor foram a categoria diagnóstica mais claramente associada aos problemas digitais. Entre meninas, apareceram com maior frequência situações relacionadas a comportamento sexual de risco e relacionamentos on-line. Entre meninos, foram mais comuns conflitos pelo acesso ao dispositivo e uso excessivo com prejuízo do funcionamento.
O ESTUDO NÃO PROVA QUE A TELA CAUSOU A CRISE
A pesquisa é retrospectiva, depende da qualidade das informações registradas no prontuário e foi realizada em um único hospital.
Também não é possível estabelecer a direção da relação. O ambiente digital pode intensificar sofrimento, exposição e conflitos, mas jovens já vulneráveis podem procurar mais intensamente esses espaços ou utilizar o dispositivo como tentativa de enfrentamento.
Assim, os resultados não justificam atribuir toda crise psiquiátrica ao celular nem adotar proibições genéricas como única resposta.
COMO LEVAR O TEMA PARA A AVALIAÇÃO CLÍNICA
A investigação pode incluir perguntas sobre cyberbullying, chantagem, exposição de imagens, acesso a conteúdo de automutilação, desafios perigosos, jogos, apostas, contatos com desconhecidos e conflitos quando o dispositivo é retirado.
Também é importante compreender se a tecnologia está prejudicando sono, escola, alimentação, atividade física, convivência familiar ou capacidade de interromper o uso.
Nos casos de ideação suicida, a avaliação deve investigar se o paciente pesquisou métodos, participou de grupos relacionados à automutilação ou recebeu estímulo de outras pessoas.
FAMÍLIA PRECISA DE ORIENTAÇÃO PRÁTICA
Limites funcionam melhor quando são previsíveis, adequados à idade e aplicados também pelos adultos da casa. Retirar abruptamente o aparelho durante uma crise pode aumentar o conflito se não houver estratégia de segurança e comunicação.
Ferramentas de supervisão, horários sem dispositivos, proteção do sono e conversas abertas sobre experiências on-line podem ajudar. Situações de violência, exploração sexual, ameaça ou risco imediato exigem proteção e acionamento da rede apropriada.
A principal contribuição do estudo é mostrar que o ambiente digital já faz parte da história clínica. Ele não explica sozinho as crises, mas também não deve permanecer invisível durante a avaliação.
Fonte principal: Medical Xpress
Estudo: An Examination of Digital Media and Device-Related Problems in Pediatric Hospital Visits for Psychiatric Crises, JAACAP Open, 2026.


