A expectativa de vida da população brasileira sofreu uma redução de 3,4 anos durante a pandemia de covid-19, acompanhada de um aumento de 27,6% na mortalidade no período. Os dados fazem parte da análise nacional do Estudo Carga Global de Doenças, considerada a maior pesquisa mundial sobre o impacto de doenças e fatores de risco em mais de 200 países.
Os resultados foram publicados na edição de maio da revista científica The Lancet Regional Health – Americas e apontam que o Brasil enfrentou um dos impactos mais expressivos da pandemia entre países emergentes.
Segundo os pesquisadores responsáveis pelo levantamento, o retrocesso observado no país está associado à condução da crise sanitária pelo governo federal durante o período da pandemia. O estudo destaca que houve enfraquecimento das recomendações científicas, disseminação de desinformação, incentivo ao uso de medicamentos sem eficácia comprovada e atraso na aquisição de vacinas contra a covid-19.
Embora a redução da expectativa de vida tenha sido registrada em todas as regiões do país, os efeitos variaram significativamente entre os estados brasileiros.
Os maiores impactos ocorreram na região Norte. Rondônia apresentou a maior redução, com perda de 6,01 anos na expectativa de vida, seguida por Amazonas, com 5,84 anos, e Roraima, com 5,67 anos.
Já os menores impactos foram registrados na região Nordeste. Maranhão teve redução de 1,86 ano, Alagoas de 2,01 anos e Rio Grande do Norte de 2,11 anos.
Os autores do estudo atribuem parte dessa diferença à adoção mais rigorosa de medidas de contenção por estados nordestinos. Na ausência de coordenação nacional unificada, governadores da região criaram um consórcio interestadual com apoio de um comitê científico independente para implementar estratégias de enfrentamento da pandemia.
Entre as medidas adotadas estavam distanciamento social, fechamento temporário de escolas e comércios, obrigatoriedade do uso de máscaras, políticas de proteção aos trabalhadores e sistemas de monitoramento de dados em tempo real.
O levantamento também compara o desempenho brasileiro ao de outros países do Mercosul e do Brics. Segundo os pesquisadores, o Brasil apresentou resultados inferiores aos de países como Argentina, Uruguai, China e Índia no controle dos impactos da pandemia.
O estudo destaca ainda que, apesar do histórico positivo do Brasil em campanhas de vacinação, houve atraso na imunização contra a covid-19 devido à demora na aquisição de vacinas e à priorização de estratégias sem comprovação científica robusta.
Apesar do impacto provocado pela pandemia, os pesquisadores observam que o Brasil apresentou avanços importantes em saúde pública nas últimas décadas.
Entre 1990 e 2023, a expectativa de vida dos brasileiros aumentou 7,18 anos, enquanto a mortalidade padronizada por idade caiu 34,5%. Além disso, houve redução de 29,5% no índice que mede os anos saudáveis perdidos por morte precoce ou incapacidade.
Os avanços são atribuídos a melhorias socioeconômicas, expansão do saneamento básico, fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS), implementação do Programa Saúde da Família e ampliação da cobertura vacinal no país.
Ao analisar as principais causas de morte nas últimas décadas, o estudo identificou redução na maioria das doenças, com exceção da doença de Alzheimer e outras demências, que apresentaram aumento de 1%, e da doença renal crônica, com crescimento de 9,6% entre 1990 e 2023.
Em 2023, a principal causa de morte no Brasil foi a doença isquêmica do coração, seguida pelo acidente vascular cerebral (AVC) e pelas infecções do trato respiratório inferior.
Já a principal causa de mortes prematuras no país foi a violência interpessoal. Segundo o levantamento, o Brasil perdeu 1.351 anos de vida a cada 100 mil habitantes em decorrência desse tipo de morte.


