A alimentação inadequada permanece como um dos principais fatores de risco para o desenvolvimento de cardiopatia isquêmica, condição caracterizada pela redução do fluxo sanguíneo nas artérias coronárias e uma das principais causas de morte no mundo.
De acordo com uma análise global realizada ao longo de 30 anos em 204 países, dietas inadequadas foram responsáveis por mais de 4 milhões de mortes por essa condição apenas em 2023, além da perda de aproximadamente 97 milhões de Anos de Vida Ajustados por Incapacidade (DALYs), indicador que reflete anos de vida perdidos por morte precoce ou incapacidade.
O estudo foi publicado na revista científica Nature Medicine e integra a iniciativa Global Burden of Disease Study, uma colaboração internacional liderada pela Universidade de Washington, que reúne pesquisadores de diferentes países para analisar fatores de risco e padrões de mortalidade relacionados a doenças.
Os dados indicam que homens e indivíduos idosos concentram maior carga de mortalidade associada à alimentação inadequada. Entre os fatores que contribuíram para esse cenário, destaca-se o aumento expressivo no consumo de bebidas açucaradas e carnes processadas em regiões da Ásia e da África entre 1990 e 2023.
Entre os principais componentes dietéticos associados ao aumento do risco estão dietas com alto teor de sódio e baixo consumo de alimentos protetores, como frutas, grãos integrais, nozes e sementes, além da baixa ingestão de ácidos graxos poli-insaturados ômega-6, essenciais para funções celulares, resposta inflamatória e metabolismo energético.
Segundo Itamar de Souza Santos, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, dietas pobres em alimentos in natura e ricas em ultraprocessados estão fortemente associadas ao aumento do risco cardiovascular. O especialista destaca ainda que esses padrões alimentares também se relacionam a outras doenças crônicas, como o câncer.
Apesar do aumento absoluto no número de casos, as taxas ajustadas por idade apresentaram redução de 44% ao longo do período analisado, o que pode refletir melhorias gerais nas condições de saúde e aumento da expectativa de vida. Ainda assim, persistem importantes desigualdades regionais, com maior carga da doença em países de baixa e média renda.
Regiões como Australásia, Europa Ocidental e América do Norte apresentaram reduções significativas na mortalidade atribuída à dieta desde 1990, enquanto áreas como a África Subsaariana Central registraram aumento de 21% no mesmo período.
A análise também demonstrou que indivíduos com mais de 65 anos apresentam taxas de mortalidade significativamente mais elevadas em comparação com populações mais jovens, além de maior impacto entre homens em todas as faixas etárias.
Os resultados reforçam a importância de políticas públicas voltadas à promoção da alimentação saudável, à redução do consumo de alimentos ultraprocessados e ao aumento do acesso a alimentos nutritivos, especialmente em regiões mais vulneráveis.

