O Brasil perde cerca de R$ 26 bilhões por ano em corrupção na área da saúde. A estimativa é do Instituto Ética Saúde (IES), que reúne representantes da indústria médico-hospitalar, hospitais, laboratórios, entidades médicas, operadoras de saúde e indústria farmacêutica, com o apoio de órgãos reguladores do governo.
O orçamento total do setor — público e privado — corresponde atualmente a 9,7% do PIB, o equivalente a R$ 1,13 trilhão, segundo o Ministério da Saúde. De acordo com o IES, pelo menos 2,3% de tudo que é investido no sistema não chega aos pacientes, sendo desviado por corrupção, fraudes e ações ilícitas. Isso significa R$ 26 bilhões desperdiçados anualmente.
Há cinco anos, o cálculo era de R$ 14,5 bilhões. Desde então, houve um aumento de 79% no montante desviado. Para ilustrar o impacto, com R$ 26 bilhões seria possível construir 52 hospitais públicos de grande porte, com cerca de 300 leitos cada; adquirir 26 mil UTIs móveis; ou comprar 2.200 aparelhos de ressonância magnética de alta resolução.
Segundo a presidente do Conselho de Administração do IES, Candida Bollis, “o maior prejudicado sempre é o paciente”. Ela defende transparência, controle social e leis mais rígidas contra os responsáveis pelos desvios.
O diretor-executivo do IES, Filipe Venturini Signorelli, reforça que todas as entidades do setor precisam se unir para fortalecer fiscalização e garantir total transparência nas contratações que envolvam recursos públicos.
Principais riscos de corrupção identificados pelo Instituto Ética Saúde
O IES mapeou os pontos mais vulneráveis da cadeia da saúde tanto no setor público quanto no privado:
Compras públicas
- Desvio de recursos
- Descumprimento contratual
- Desperdício
- Abusos de preços
- Corte ou negativa de fornecimento
- Imposição de condições abusivas
- Acordos ilícitos entre concorrentes
Contratos privados
- Falhas em entregas
- Irregularidades em pagamentos
- Produtos de baixa qualidade
- Falsificações
- Fragilidades regulatórias
- Alocação indevida de recursos
Profissionais de saúde
- Condutas antiéticas
- Abusos físicos ou psicológicos
- Negligência intencional
- Violação da confiança médico-paciente
Medicamentos
- Venda irregular de controlados
- Comercialização sem receita
- Desvios de produtos distribuídos gratuitamente
Dados e privacidade
- Uso indevido de informações de médicos para manipular prescrições
- Violação da LGPD
Planos de saúde
- Reajustes abusivos
- Falhas de fiscalização da ANS
- Cancelamentos unilaterais de contratos
- Impactos graves em pacientes em tratamento
- Descumprimento da Lei nº 9.656/98
Práticas antiéticas mais frequentes
Segundo o IES, entre as irregularidades mais comuns nas relações entre empresas e profissionais de saúde estão:
- Pagamento de propina por indicação de produtos
- Patrocínio indevido de eventos
- Presentes e brindes sem caráter científico
- Informalidade em comodatos e consignações
- Pagamentos disfarçados como “descontos financeiros”
- Incentivo à reesterilização de produtos de uso único
- Falsificação de dispositivos cirúrgicos
- Fraudes em registros de materiais
- Fraudes em concessão de leitos do SUS
Além disso, crescem os casos de condutas antiéticas de profissionais contra pacientes, impactando gravemente a segurança e a confiança no sistema.
Radar da Ética: ferramenta inédita de monitoramento
O Instituto Ética Saúde lançou o Radar da Ética, uma plataforma dedicada ao monitoramento de irregularidades e más práticas no setor.
A ferramenta reúne relatórios técnicos atualizados, acessíveis e estruturados para o público, permitindo que cidadãos, gestores, profissionais de saúde e jornalistas acompanhem irregularidades com embasamento e senso crítico.
Canal de denúncias
O IES mantém um canal sigiloso para denúncias — que podem ser anônimas — sobre práticas irregulares, desrespeito às leis, sobrepreço, adulterações, fraudes e outras violações.
📞 0800 810 8163
🌐 Site oficial do Instituto Ética Saúde
Segundo Filipe Venturini, “é preciso fomentar denúncias e fortalecer a atuação conjunta entre o Instituto e órgãos reguladores, garantindo responsabilização dos infratores”.


