Pessoas com 50 anos ou mais já somam cerca de 59 milhões de brasileiros, o equivalente a 27% da população do país, segundo dados do IBGE. Apesar da relevância desse grupo e do aumento dos diagnósticos de HIV nessa faixa etária, a participação da população 50+ entre os usuários da Profilaxia Pré-Exposição ao HIV, conhecida como PrEP, ainda é baixa.
Atualmente, pessoas com 50 anos ou mais representam apenas 7,9% dos usuários de PrEP no Brasil, o que corresponde a aproximadamente 18,6 mil pessoas. O dado evidencia um descompasso entre o envelhecimento da população brasileira, a permanência da vida sexual ativa nessa fase da vida e o alcance das estratégias de prevenção ao HIV.
A PrEP é uma das principais ferramentas disponíveis para reduzir o risco de infecção pelo HIV. A estratégia consiste no uso preventivo de medicamentos por pessoas com maior vulnerabilidade à exposição ao vírus. No Brasil, está disponível pelo Sistema Único de Saúde e também pode ser acessada na rede privada, em farmácias e drogarias.
Nos últimos anos, a PrEP se consolidou como uma política importante de prevenção combinada. No entanto, sua adesão ainda se concentra principalmente entre adultos mais jovens. Pessoas acima dos 50 anos, por outro lado, permanecem menos presentes nas campanhas de conscientização, nas ações de cuidado sexual e nas discussões sobre prevenção.
Essa lacuna se torna ainda mais relevante quando o olhar se volta para a população LGBT+ com mais de 50 anos. Trata-se de um grupo com diferentes trajetórias afetivas, sexuais e de cuidado, mas que muitas vezes segue invisibilizado nas mensagens de prevenção e nas abordagens de saúde voltadas ao envelhecimento.
Segundo o infectologista Vinícius Borges, membro titular da Sociedade Brasileira de Infectologia, a baixa participação desse público no uso da PrEP mostra que ainda há falhas na oferta de prevenção adequada. Para ele, é necessário desconstruir a ideia de que o HIV é uma preocupação restrita a pessoas mais jovens.
Dados do Boletim Epidemiológico HIV/Aids 2025, do Ministério da Saúde, reforçam a necessidade de ampliar o debate. Entre as mulheres com 50 anos ou mais, a participação nos novos casos de HIV passou de 10,9% em 2014 para 17% em 2024. Entre os homens da mesma faixa etária, o percentual aumentou de 7,6% para 9% no mesmo período.
Os números mostram que o HIV continua presente em diferentes fases da vida. Ainda assim, as ações de prevenção nem sempre acompanham essa mudança no perfil epidemiológico. A sexualidade de pessoas mais velhas, muitas vezes, ainda é tratada com silêncio, estigma ou invisibilidade.
A baixa adesão à PrEP entre pessoas acima dos 50 anos não pode ser explicada por um único fator. Especialistas apontam uma combinação de barreiras culturais, estruturais e assistenciais.
Uma das principais dificuldades é a baixa percepção de vulnerabilidade. Ainda existe a ideia equivocada de que o HIV está relacionado apenas à juventude ou a determinados comportamentos. Com isso, muitas pessoas com mais de 50 anos não se reconhecem como público das campanhas de prevenção, mesmo mantendo vida sexual ativa ou retomando relacionamentos após separações, divórcios ou viuvez.
Outro obstáculo está dentro dos próprios serviços de saúde. Profissionais nem sempre perguntam sobre vida sexual de pacientes mais velhos durante as consultas. Quando esse tema não é abordado, oportunidades importantes de orientação, testagem, aconselhamento e indicação da PrEP deixam de acontecer.
Para Vinícius Borges, o desafio não é apenas técnico. O profissional de saúde precisa abrir espaço para essa conversa, e o paciente precisa saber que também tem direito à prevenção. Ignorar essa faixa etária significa deixar desprotegido um contingente crescente da população.
A discussão também envolve acesso à informação. Muitas campanhas de prevenção ainda utilizam linguagem, imagens e estratégias voltadas principalmente ao público jovem. Isso pode dificultar a identificação de pessoas mais velhas com as mensagens de cuidado, criando a impressão de que a PrEP não é uma ferramenta pensada para elas.
O envelhecimento da população brasileira exige que as políticas de saúde sexual acompanhem essa realidade. Falar sobre HIV, PrEP, testagem e prevenção entre pessoas com mais de 50 anos não significa estimular comportamentos de risco, mas reconhecer que sexualidade, vínculos afetivos e necessidade de cuidado existem em todas as fases da vida.
A ampliação do acesso à PrEP para esse público depende de campanhas mais inclusivas, capacitação dos profissionais de saúde e abordagem sem preconceito dentro dos consultórios. Também exige que pacientes sejam estimulados a conversar sobre prevenção, testagem e dúvidas relacionadas à saúde sexual.
O avanço da prevenção ao HIV no Brasil passa por reconhecer que nenhuma faixa etária deve ficar fora das estratégias de cuidado. A população 50+ representa uma parcela expressiva dos brasileiros e precisa ser contemplada de forma mais clara, acolhedora e efetiva nas políticas de prevenção.


