Pesquisadoras brasileiras estão desenvolvendo uma iniciativa inédita para estudar a microbiota vaginal da população feminina no Brasil. Batizado de Projeto Rita, o estudo pretende mapear o DNA dos microrganismos presentes na vagina de mulheres brasileiras por meio de autocoleta e sequenciamento genético avançado.
O projeto faz parte da rede internacional Isala, criada na Universidade de Antuérpia, na Bélgica, considerada atualmente o maior estudo de microbioma vaginal do mundo. A iniciativa já conecta cerca de 20 países e reúne dados de mais de 10 mil mulheres.
No Brasil, o nome Projeto Rita homenageia Rita Lobato, primeira mulher brasileira formada em Medicina, em 1887. A coordenação da pesquisa está sob responsabilidade de Carla Taddei, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). O objetivo é compreender como fatores sociodemográficos, hábitos de vida, alimentação, genética e condições de saúde influenciam o microbioma vaginal das brasileiras.
A proposta prevê o envio de kits de autocoleta para voluntárias de diferentes regiões do país. Após a coleta da secreção vaginal, o material será encaminhado para análise laboratorial no Instituto de Ciências Biomédicas da USP. A expectativa é reunir cerca de 5 mil amostras, incluindo mulheres de povos originários e comunidades quilombolas.
Atualmente, a equipe busca financiamento para aquisição dos kits necessários para a continuidade do projeto. Apesar disso, o estudo já recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa, requisito obrigatório para pesquisas envolvendo seres humanos no Brasil.
Além da pesquisa científica, o Projeto Rita também atua na divulgação de informações sobre saúde íntima feminina nas redes sociais, buscando reduzir tabus e ampliar o acesso à informação baseada em evidências científicas.
A microbiota vaginal é formada por diferentes microrganismos que convivem em equilíbrio e exercem funções importantes na proteção da saúde íntima. Entre eles, destacam-se os lactobacilos, bactérias responsáveis pela produção de ácido láctico, ajudando a manter o ambiente vaginal ácido e dificultando a proliferação de vírus, fungos e bactérias patogênicas.
Segundo as pesquisadoras, ainda não se sabe qual espécie de Lactobacillus predomina na população brasileira. Em outros países, diferentes perfis microbiológicos já foram identificados, o que reforça a importância de compreender as particularidades da microbiota nacional.
Diferentemente de exames ginecológicos tradicionais, como o Papanicolau, o estudo utiliza técnicas específicas de sequenciamento genético para identificar toda a comunidade bacteriana presente nas amostras coletadas. Além da análise laboratorial, as voluntárias responderão questionários sobre hábitos de vida, alimentação, métodos contraceptivos e fatores sociodemográficos.
Os dados poderão contribuir para o desenvolvimento de estratégias mais personalizadas de prevenção e tratamento de infecções vaginais recorrentes, além de auxiliar futuras políticas públicas voltadas à saúde da mulher. As pesquisadoras também pretendem utilizar as informações para ampliar estudos relacionados ao HPV e ao impacto da microbiota na saúde ginecológica.
Especialistas apontam que compreender as características específicas da microbiota vaginal brasileira pode ajudar no desenvolvimento de tratamentos probióticos mais eficazes e adequados à realidade genética e étnica da população nacional.
O Projeto Rita também pretende ampliar a discussão sobre saúde íntima feminina e combater o tabu em torno do tema. Segundo as pesquisadoras, incluir as mulheres diretamente no processo científico, por meio da autocoleta, fortalece o protagonismo feminino na produção de conhecimento científico sobre o próprio corpo.


