Iniciativa privada leva profissionais especializados a diferentes estados e também promove capacitação médica para reduzir o atraso no diagnóstico da doença
Uma iniciativa brasileira está utilizando uma aeronave para transportar uma equipe multidisciplinar especializada em endometriose entre diferentes regiões do país. Batizado de EndoAir, o projeto busca levar atendimento cirúrgico de alta complexidade a cidades nas quais pacientes enfrentam dificuldades para encontrar profissionais com experiência na doença.
A proposta foi idealizada pelo cirurgião ginecológico Igor Chiminacio. Em vez de exigir que cada paciente viaje até um grande centro médico, o projeto desloca cirurgiões, auxiliares e instrumentadores até hospitais de diferentes estados.
A equipe é composta por três a cinco profissionais e pode incluir cirurgião ginecológico, cirurgião do aparelho digestivo, médico auxiliar e instrumentadora cirúrgica. A composição varia conforme a complexidade do caso e os órgãos potencialmente comprometidos.
Atualmente, a iniciativa atua em Pato Branco e Curitiba, no Paraná, além de São Paulo e Brasília. O projeto pretende ampliar as atividades para outras regiões, incluindo Rio de Janeiro e Maranhão, com perspectiva de alcançar cidades do Norte e do Nordeste.
Por que a endometriose exige atendimento especializado
A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora da cavidade uterina. As lesões podem atingir os ovários, as tubas uterinas, o peritônio, o intestino, a bexiga e outras estruturas da pelve.
Entre os sintomas mais frequentes estão cólicas menstruais intensas, dor durante ou após a relação sexual, dor pélvica crônica, desconforto para evacuar ou urinar durante o período menstrual, sangramento intestinal ou urinário cíclico e dificuldade para engravidar.
A intensidade da dor nem sempre corresponde à extensão das lesões. Algumas mulheres com doença avançada apresentam poucos sintomas, enquanto outras, com lesões menores, podem conviver com dor incapacitante.
Segundo estimativas citadas pelo Ministério da Saúde, a condição afeta entre 5% e 15% das mulheres em idade reprodutiva. Apesar da frequência, ainda existe desconhecimento sobre seus sinais. Pesquisa do Instituto Ipsos apontou que quatro em cada dez brasileiras não conhecem os sintomas e que 77% das entrevistadas já tiveram suas queixas minimizadas ou desconsideradas por médicos.
Diagnóstico pode demorar anos
O diagnóstico da endometriose pode levar cerca de uma década. Parte desse atraso ocorre porque cólicas intensas ainda são tratadas como uma consequência normal da menstruação.
A doença também pode produzir manifestações semelhantes às de outras condições ginecológicas, gastrointestinais ou urinárias. Quando não há investigação adequada, a paciente pode passar por diferentes especialidades sem receber uma explicação para os sintomas.
O diagnóstico começa pela avaliação clínica detalhada, incluindo características da dor, relação com o ciclo menstrual, sintomas intestinais e urinários, histórico reprodutivo e impacto sobre a qualidade de vida.
Exames de imagem, como ultrassonografia transvaginal com preparo específico e ressonância magnética da pelve, podem auxiliar no mapeamento das lesões. A escolha do exame depende do caso, da experiência do serviço e da suspeita clínica.
Embora a confirmação histológica possa ocorrer após uma cirurgia, não é necessário operar todas as pacientes apenas para estabelecer o diagnóstico. Em muitos casos, a combinação entre história clínica e exames de imagem permite iniciar o tratamento.
Nem toda paciente precisa de cirurgia
O tratamento da endometriose deve ser individualizado. A decisão considera idade, intensidade dos sintomas, localização das lesões, desejo de engravidar, resposta aos tratamentos anteriores e impacto da doença sobre a rotina.
Medicamentos hormonais podem reduzir ou interromper a menstruação e controlar a atividade da doença. Entre as opções estão contraceptivos hormonais combinados, progestagênios e outros agentes que modulam o eixo hormonal.
Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser utilizados para alívio da dor, embora não tratem diretamente as lesões. Fisioterapia do assoalho pélvico, atividade física orientada, acompanhamento psicológico e estratégias para manejo da dor crônica também podem integrar o cuidado.
A cirurgia costuma ser considerada quando os sintomas permanecem intensos apesar do tratamento clínico, quando há comprometimento de órgãos, alterações anatômicas importantes, suspeita de obstrução ou situações específicas relacionadas à fertilidade.
A presença de endometriose, isoladamente, não determina a necessidade de operar. A indicação deve ser discutida de forma cuidadosa para evitar procedimentos desnecessários ou repetidos.
Cirurgias podem envolver diferentes especialidades
Nos casos de endometriose profunda, as lesões podem infiltrar o intestino, a bexiga, os ureteres e outras estruturas. Por isso, a cirurgia pode exigir a participação de profissionais de diferentes especialidades.
A integração entre ginecologista, cirurgião do aparelho digestivo, urologista, anestesista, radiologista e equipe de enfermagem aumenta a capacidade de planejar o procedimento e lidar com possíveis intercorrências.
Segundo o idealizador do EndoAir, levar a mesma equipe a diferentes cidades permite manter os protocolos e a integração entre os profissionais. O projeto busca reproduzir um padrão semelhante de atendimento independentemente da região em que a cirurgia seja realizada.
O modelo não elimina a necessidade de estrutura hospitalar adequada no local. Procedimentos complexos dependem de equipamentos, suporte anestésico, banco de sangue, recursos para atendimento de complicações e acompanhamento pós-operatório.
Iniciativa também aposta na educação médica
Além das cirurgias, o EndoAir realiza cursos, treinamentos e palestras para profissionais de saúde. As atividades são desenvolvidas em parceria com a Women’s Health Research e procuram atualizar conceitos sobre diagnóstico e tratamento.
Uma das próximas ações está prevista para o Maranhão, com atividades educativas direcionadas a médicos, outros profissionais de saúde e mulheres da região.
A capacitação é considerada estratégica porque o acesso a equipamentos de imagem ou centros cirúrgicos não resolve sozinho o problema do diagnóstico tardio. É necessário que profissionais da atenção primária, ginecologistas e médicos de outras especialidades reconheçam os sinais de alerta e saibam quando encaminhar a paciente.
Cólicas que impedem atividades cotidianas, dor pélvica recorrente, sintomas intestinais ou urinários relacionados ao ciclo menstrual e dor nas relações não devem ser automaticamente normalizados.
Desigualdade regional afeta o acesso
Grande parte dos especialistas e dos serviços de alta complexidade está concentrada nos maiores centros urbanos. Para pacientes de cidades menores, o tratamento pode exigir viagens longas, custos com hospedagem e afastamento do trabalho.
A dificuldade é ainda maior quando a cirurgia depende de diferentes profissionais atuando em conjunto. Nem todas as regiões possuem equipes habituadas a operar casos de endometriose profunda.
Ao transportar a equipe médica, o projeto propõe uma inversão do fluxo tradicional. Essa estratégia pode reduzir parte do deslocamento das pacientes e aproximar o atendimento especializado de outras regiões.
Por se tratar de uma iniciativa privada, sua capacidade de ampliar o acesso em escala nacional dependerá da expansão da rede, da estrutura dos hospitais parceiros e dos custos envolvidos. O modelo, porém, chama atenção para a necessidade de descentralizar o conhecimento sobre a doença.
Informação pode reduzir anos de sofrimento
A endometriose pode afetar trabalho, estudos, relacionamentos, sexualidade, sono, saúde mental e planejamento reprodutivo. O atraso no diagnóstico prolonga o sofrimento e pode fazer com que muitas mulheres convivam durante anos com a impressão de que a dor é inevitável.
Campanhas de conscientização devem deixar claro que sentir algum desconforto durante a menstruação pode ocorrer, mas dor intensa e incapacitante precisa ser investigada.
O diagnóstico mais precoce não significa que todas as pacientes serão submetidas a cirurgia. Ele permite discutir opções terapêuticas, controlar sintomas, acompanhar a evolução da doença e planejar o cuidado de acordo com os objetivos de cada mulher.
Ao combinar atendimento especializado com educação médica, o projeto pretende atuar em duas das principais barreiras relacionadas à endometriose: a demora para reconhecer a doença e a concentração dos profissionais capacitados em poucos centros.


