Pesquisadores da Universidade de São Paulo desenvolveram um microcarreador híbrido capaz de transportar medicamentos quimioterápicos até o intestino e liberá-los de maneira direcionada na região onde se encontra o tumor colorretal.
A inovação combina nanotecnologia, materiais lipídicos e uma cápsula micropolimérica resistente à acidez do estômago. A proposta é proteger o medicamento durante sua passagem pelo trato gastrointestinal e permitir que ele seja liberado apenas depois de alcançar o intestino.
O projeto integrou a tese de doutorado de Cláudio Fukumori, do Instituto de Ciências Biomédicas da USP, sob orientação da professora Luciana Lopes, do Departamento de Farmacologia.
Atualmente, muitos medicamentos contra o câncer são administrados por via intravenosa e circulam por todo o organismo. Embora essa distribuição seja necessária em diversos cenários, ela também expõe tecidos saudáveis aos fármacos e pode provocar efeitos adversos importantes.
A plataforma desenvolvida pela USP busca aumentar a concentração do medicamento no local desejado, potencializar a ação antitumoral e, futuramente, avaliar se seria possível utilizar doses menores.
Tratamento oral e liberação direcionada
O microcarreador contém pequenas estruturas lipídicas responsáveis por encapsular os medicamentos. Ao redor delas existe uma camada polimérica capaz de resistir ao ambiente ácido do estômago.
Depois de chegar ao intestino, essa camada permite a liberação do fármaco. Em tese, o sistema poderá substituir, em situações selecionadas, parte da administração intravenosa por uma formulação oral, reduzindo a necessidade de deslocamentos frequentes ao hospital.
A tecnologia também poderá receber medicamentos com diferentes características físico-químicas. Conforme o modo de fabricação, os nanocarreadores podem incorporar substâncias hidrofílicas ou lipofílicas, ampliando as possibilidades da plataforma.
Além do câncer colorretal, os pesquisadores consideram que a estrutura possa futuramente ser adaptada para outros tumores ou doenças intestinais.
Tecnologia ainda não foi testada em pacientes
Apesar do potencial, o microcarreador ainda se encontra em uma etapa inicial de desenvolvimento. Os estudos realizados até agora demonstraram a viabilidade da incorporação dos medicamentos e da liberação direcionada, mas não avaliaram sua eficácia em ensaios clínicos.
Os próprios pesquisadores ressaltam que ainda não é possível afirmar quais pacientes poderão se beneficiar da tecnologia. Pessoas com doença invasiva ou disseminada, por exemplo, podem continuar necessitando de tratamentos sistêmicos capazes de alcançar diferentes regiões do organismo.
Também será necessário estudar a absorção intestinal, a distribuição do medicamento, a segurança, a toxicidade e a eficácia antitumoral antes que a plataforma possa chegar à prática clínica.
Para avançar, o projeto dependerá de novos investimentos, parcerias e etapas de pesquisa pré-clínica e clínica. Por enquanto, a descoberta deve ser compreendida como uma tecnologia experimental promissora, e não como um tratamento já disponível.
O câncer colorretal representa cerca de 10% dos diagnósticos de câncer no mundo, com aproximadamente 1,9 milhão de novos casos e 935 mil mortes por ano. Quando identificado em fase inicial e ainda restrito ao local de origem, a possibilidade de cura pode ultrapassar 90%, reforçando a importância do rastreamento e do diagnóstico precoce. Fonte: Medicina S/A

