Cobertura com ivermectina chegou a 85,4% da população elegível na Terra Indígena Yanomami, onde permanece o último foco ativo da doença nas Américas
O Brasil atingiu a meta definida pela Organização Mundial da Saúde para o tratamento coletivo contra a oncocercose.
No primeiro semestre de 2026, 85,4% da população elegível na área endêmica recebeu ivermectina. O parâmetro internacional considerado satisfatório é de pelo menos 85%.
O último foco ativo da oncocercose nas Américas está localizado na Terra Indígena Yanomami, entre Roraima e Amazonas, em uma região de fronteira com a Venezuela.
O país se encontra em fase de pré-eliminação e pretende eliminar a doença como problema de saúde pública até 2030.
O que é a oncocercose
A oncocercose é uma doença parasitária crônica causada pelo verme Onchocerca volvulus.
A transmissão ocorre pela picada de insetos do gênero Simulium, conhecidos popularmente como borrachudos ou piuns, infectados pelas larvas do parasita.
Depois de entrar no organismo, o parasita amadurece e passa a produzir microfilárias. Essas formas podem migrar pela pele e atingir os olhos.
As manifestações incluem coceira intensa, erupções cutâneas, nódulos, alterações de pigmentação e perda da elasticidade da pele.
O comprometimento ocular pode provocar inflamação da córnea e, em quadros graves, cegueira irreversível. Por essa razão, a doença também ficou conhecida como cegueira dos rios.
Por que o tratamento precisa alcançar quase toda a comunidade
A ivermectina atua contra as microfilárias, reduzindo as manifestações e diminuindo a quantidade de parasitas disponíveis para infectar novos vetores.
A administração repetida em grande parte da população interrompe progressivamente a cadeia de transmissão.
O tratamento coletivo é realizado duas vezes ao ano entre moradores e profissionais que permanecem na área endêmica.
Nem todas as pessoas são elegíveis. Gestantes, pessoas gravemente doentes e crianças menores de cinco anos que tenham menos de 90 centímetros ou menos de 15 quilos são excluídas da administração coletiva.
A cobertura precisa ser elevada porque pessoas infectadas e não tratadas podem continuar funcionando como reservatórios para a transmissão.
Último comprometimento ocular foi registrado em 2012
Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil não possui atualmente registros de cegueira causada pela oncocercose.
O último caso de comprometimento oftalmológico associado à doença foi uma ceratite esclerosante identificada em 2012.
A ausência de novos casos oculares representa um avanço importante, mas não permite interromper prematuramente o tratamento e a vigilância.
Mesmo quando as manifestações clínicas diminuem, ainda pode existir transmissão residual. A interrupção das ações antes da confirmação da eliminação pode permitir o retorno da doença.
Desafios na Terra Indígena Yanomami
A localização do foco torna a operação especialmente complexa.
As comunidades vivem em áreas extensas, remotas e de difícil acesso. O deslocamento depende de condições climáticas, transporte aéreo e fluvial, disponibilidade de profissionais e conhecimento da distribuição das aldeias.
A mobilidade entre Brasil e Venezuela também exige estratégias coordenadas. O tratamento brasileiro contempla indígenas venezuelanos que transitam pela região de fronteira.
A execução precisa respeitar a cultura, a organização comunitária e as características linguísticas dos povos atendidos.
Além da distribuição do medicamento, são necessários registro adequado, busca ativa, monitoramento de possíveis reações e avaliação da persistência da transmissão.
Eliminação exige comprovação
Alcançar a meta de cobertura é uma etapa decisiva, mas não representa por si só a eliminação da doença.
O processo exige acompanhamento entomológico e epidemiológico, além de exames capazes de demonstrar que o parasita deixou de circular na população e nos vetores.
Somente depois de cumpridos os critérios internacionais é possível suspender o tratamento coletivo e iniciar um período de vigilância pós-tratamento.
O avanço brasileiro possui relevância continental. Com a Terra Indígena Yanomami concentrando o último foco das Américas, a eliminação no território pode representar o encerramento da transmissão regional.
A cobertura de 2026 mostra que o objetivo está mais próximo. Mantê-la, apesar das barreiras geográficas e sociais, será fundamental para transformar uma meta de saúde pública em eliminação definitiva.
Fonte: Ministério da Saúde.

